
Dívida brasileira chega a 82,9% do PIB, maior patamar desde a pandemia de covid-19. O ‘Nexo’ ouve economistas sobre os caminhos possíveis para a condução do quadro fiscal
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Moedas de um real sobre cédulas
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Rafa Neddermeyer / Agência Brasil
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A dívida pública brasileira ficou em 82,9% do PIB (Produto Interno Bruto) em setembro de 2026, segundo relatório do Banco Central divulgado na quinta-feira (29). É o maior nível de endividamento desde março de 2021, ápice da pandemia de covid-19 no país.
A situação fiscal pressiona o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que caminha para seu quarto mandato num cenário de juros altos e cobranças de agentes do mercado e de economistas por ajustes nas contas públicas.
Neste texto, o Nexo explica como o quadro desafia Lula 4 e quais os caminhos para lidar com a dívida do governo, segundo dois economistas.
O cenário da dívida pública
A relação dívida/PIB é usada muitas vezes para medir a saúde financeira de um governo. A lógica é que quanto maior o endividamento do setor público em relação à capacidade produtiva da economia, maior a dificuldade para o pagamento dos valores devidos.
Em janeiro de 2023, a relação dívida/PIB do Brasil era de 71,4%. Em setembro de 2026, foi de 82,9%.
R$ 11,1 trilhões
foi a dívida bruta do governo geral em setembro, incluindo governo federal, Previdência e governos estaduais e municipais
O Brasil vive uma situação de desequilíbrio nas contas públicas desde ao menos 2014. A partir daquele momento, o país acumulou deficits primários em quase todos os anos – ou seja, o governo gastou mais do que arrecadou, sem contar o pagamento de juros. Essas diferenças costumam ser cobertas pelo governo por meio da contração de mais dívida.
Se a dívida pública cresce, pode aumentar a percepção de que o governo terá dificuldades de honrar seus compromissos com credores. E se há maior percepção de risco, os agentes de mercado cobram um prêmio mais alto para emprestar dinheiro ao poder público – o que acontece via compra de títulos públicos. Isso significa que tende a haver um aumento dos juros.
Os juros mais altos ajudam a retroalimentar a dívida pública, que passa a ter um custo mais alto. Mas há também efeitos sobre a população, que vê um aumento nas taxas para pegar empréstimos.
O plano de governo entregue pela candidatura de Lula ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em agosto de 2026 fala sobre manter responsabilidade fiscal, mas não detalha como fazer isso. Em setembro, durante a campanha, Lula afirmou que a pressão por superavit era “babaquice”. Às portas da eleição, o petista anunciou medidas de grande alcance social, mas que aumentam as despesas e diminuem a arrecadação, incluindo:
o reajuste do Bolsa Família em 15%
o Desenrola 3.0, para compra de dívidas de pessoas pelo governo
o perdão de dívidas dos MEIs (microempreendedores individuais)
a implementação de tarifa zero no transporte público durante fins de semana
A dívida pública sob análise
O Nexo conversou com dois economistas para entender a situação fiscal brasileira e as perspectivas de rearranjo no quarto mandato de Lula. São eles:
Frederico Gonzaga Jayme Junior, professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)
Silvia Maria Matos, professora da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e coordenadora do Boletim Macro do FGV-Ibre (Instituto Brasileiro de Economia)
É necessário fazer um ajuste fiscal? Por quê?
FREDERICO GONZAGA O grande problema da dívida pública hoje são os juros que incidem sobre ela. Só que é o Banco Central que determina a taxa e o governo não tem como interferir nisso. Então o Executivo teria duas soluções. Uma seria atacar o deficit primário, ou seja, diminuir o gasto em relação à receita.
Ou então crescer a economia. Se isso ocorrer, se tiver uma inflação um pouco maior e se os juros caírem, isso vai ter um impacto bem positivo na dívida, independentemente do resultado fiscal primário. Mas esse é o grande problema. Controlar o deficit primário, às custas de quê?
Então tem que diminuir o gasto, o que não é uma tarefa muito simples. No fundo, fazer um ajuste fiscal em cima do excedente primário é muito difícil. Sou muito cético com relação a conseguir um ajuste rigoroso, principalmente em um governo populista.
SILVIA MATOS Para a economia poder crescer de forma sustentável e até evitar uma recessão econômica, é importante reduzir a taxa real de juros. A única forma de conseguir isso é com ajuste fiscal. O Brasil vive um desequilíbrio fiscal há muitos anos. No primeiro ano de Dilma 2 e brevemente durante o governo Bolsonaro, nós tivemos um superavit estrutural [saldo das contas do governo sem considerar efeitos do ciclo econômico]. Mas esse é um cenário que eliminamos e tivemos um deficit estrutural.
Lula 3 foi um governo em que a dívida pública cresceu fortemente por dois motivos: ausência de superavit primário e um juro real alto, muito por conta do desequilíbrio fiscal. Os gastos públicos crescem muito acima do crescimento da economia em termos reais, o que pressiona a inflação, e é como se estivéssemos em um cabo de guerra: a política fiscal estimulando a economia e a política monetária, por outro lado, tentando esfriar. Em um contexto mais preocupante, pensando em riscos de crise mesmo, isso gera efeitos deletérios sobre a economia.
Com certeza é urgente reduzir os juros, só que não temos bala de prata e o mundo também não vai ajudar, já que também está com juro real mais alto. A única forma que conhecemos, em termos macroeconômicos, é fazermos o nosso dever de casa com um ajuste fiscal consistente. A questão é como fazer isso.
Onde cortar gastos e como equilibrar isso com as promessas de campanha de Lula?
FREDERICO GONZAGA Uma das formas seria diminuir o gasto tributário, ou seja, diminuir os incentivos fiscais, que são elevadíssimos. O governo já tentou fazer isso, mas os empresários não deixaram. [Não é possível] Diminuir o gasto que incide sobre os pobres ou diminuir o gasto em saúde e educação, que é constitucionalmente definido. Negociar com o Congresso para diminuir o absurdo que é o volume de emendas parlamentares também é difícil.
Eu sou muito cético com relação a conseguir um ajuste rigoroso, principalmente em um governo populista. Então, o que fazer? Tentar resolver o problema da dívida pública via diminuição dos gastos primários vai gerar um resultado pífio. Cortar o aumento real do salário mínimo teria um efeito maior, mas nem deve, porque é o único instrumento de distribuição da renda do trabalho no Brasil.
Fundamentalmente, precisaríamos de ajustes no gasto tributário e racionalização das emendas parlamentares, mantendo as políticas para evitar que o impacto caia nos pobres.
SILVIA MATOS Há vários gastos que não vão resolver o nosso problema fiscal diretamente, mas vão gerar uma maior credibilidade do próprio governo diante da sociedade. Todos os Poderes teriam que dar a sua contribuição para controlar as contas. Do ponto de vista do Judiciário, com certeza é a parte salarial, em que a maioria dos juízes recebe muito acima do teto. Também temos as emendas parlamentares, que hoje se apresentam em um patamar muito alto.
Também deveríamos ser um pouco mais rigorosos nos critérios de concessão da aposentadoria rural e elevar um pouco a idade. É um valor muito alto que temos de Previdência e o BPC [Benefício de Prestação Continuada] também está explodindo. É preciso ter critérios mais duros para concessão desses benefícios. A Previdência está aumentando em quantidade de pessoas — porque estamos envelhecendo —, e também temos o valor da aposentadoria vinculado ao salário mínimo. Eu acredito que deve haver uma discussão importante sobre reajuste real de aposentadoria. O salário mínimo está relacionado a quê? A ganho de produtividade. Mas por que dar esse aumento real para um aposentado que não está trabalhando? Poderia ter um índice específico.
Outra discussão está na saúde e na educação. A lei determina que, se aumenta a receita líquida, automaticamente aumentam os gastos com saúde e educação. Mas seria melhor relacionar o crescimento educacional ou de saúde a alguma outra regra que desvincule a receita.
Por fim, tem mais um aspecto importante: o governo tem renúncias de tributos e seria extremamente importante revisar isso. Essa revisão pode ajudar no superavit ou, eventualmente, até viabilizar o debate de reduzir o IVA [Imposto sobre Valor Agregado, criado pela reforma tributária] lá na frente, para uma alíquota menor, mais adequada.
Eu entendo que atacar de todos os lados é como fazer um ataque geral, até porque, na hora em que entrar nos benefícios sociais, você tem que falar para a sociedade que todo mundo tem que contribuir para voltarmos a ter um juro mais civilizado e baixar a dívida.